O que é democracia?

Maturana é um pensador que admiro muito. Comecei a ler “Amar e  Brincar – fundamentos esquecidos do humano” em 2011, quando ganhei de presente de um amigo muito querido e fiquei lendo, relendo, re-relendo muitas vezes para tentar entender quando ele fala das “coordenações de coordenações de ações e emoções”. Foi confuso e difícil no começo (mas, afinal, qual começo não é confuso e difícil?!), porém aos poucos fui entendendo o conceito geral e indo pros detalhes.

Com toda a movimentação política quem tem rolado no país acabei voltando a ele e ao que ele entende por democracia.

mafalda democracia

Antes de falar sobre a democracia, mesmo, acho importante te contar um pouquinho sobre os conceitos de cultura matrística e cultura patriarcal, que cumprem papel fundamental na explicação do que é democracia e como ela surgiu segundo o biólogo chileno.

A cultura patriarcal se caracteriza pelas coordenações de ações e emoções que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência que valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade.

A cultura matrística é apresentada com base em estudos que analisam restos arqueológicos encontrados na área do Danúbio, nos Balcãs e no Egeue acredita-se ter se constituído como redes de conversação de participação, inclusão, colaboração, compreensão, respeito mútuo, acordo e co-inspiração.

Maturana fala que ao nascer e durante a infância temos a oportunidade de viver mais próximos da cultura matrística porque as mulheres mantêm uma relação matrística  fundamental em suas inter-relações e no relacionamento com os/as filhos/as.
Porém, crianças, homens e mulheres devem tornar-se patriarcais na vida adulta, cada um segundo o seu gênero: meninos tornam-se competitivos e autoritários; meninas serviçais e submissas.

Assim, a democracia surge quando cidadãos-gregos (ainda que somente os proprietários de terras fossem considerados, de fato, cidadãos), gente patriarcal, ocupa as praças das cidades-estado para conversar sobre os assuntos de suas comunidades. O encontrar-se na Ágora, tornando públicos (de todos) os assuntos da comunidade transformou-se numa forma cotidiana de viver.A democracia nega e se opõe à apropriação dos assuntos da comunidade por qualquer indivíduo isolado e por qualquer classe ou grupo de pessoas, pois os assuntos da comunidade são mantidos visíveis e acessíveis à análise, exame, consideração, opinião e ação responsável de todos os cidadãos.

Num viver democrático, a cooperação, o compartilhamento e a participação fazem parte do emocionar básico, e a ação a que conduz tal emocionar ante a escassez é a distribuição participativa, não a apropriação. Desse modo, qualquer argumento que justifique a apropriação é restritivo, ou interfere no acesso aos meios de vida de alguns dos membros de uma comunidade democrática, destruindo assim a democracia nessa comunidade.

O viver democrático surge como intenção de realizar um modo neomatrístico de convivência, na constituição do Estado democrático como um projeto comum. A democracia não é um solução. É um ato poético, que define um ponto de partida para uma vida adulta neomatrística, porque é a constituição – por declaração – de um Estado como sistema de convivência, um sistema social humano, um âmbito de respeito recíproco, cooperação e co-participação, co-extensivo com uma comunidade humana regida ou realizada por tal declaração.

Viver em democracia é um ato de responsabilidade pública, que surge de um desejo de viver tanto na dignidade individual quanto na legitimidade social que ela implica como forma matrística de vida. E falhamos em nosso propósito, quando não realizamos essa maneira de viver enquanto afirmamos que queremos viver nela.

Seguimos,
Clarissa

Esse post são trechos extraídos do livro Amar e brincar – fundamentos esquecidos do humano de Humberto R. Maturana e Gerda Verden-Zöller publicado pela editora Palas Atena em 2004.

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